Receita: Pudim de café

•5 de fevereiro de 2011 • Deixe um comentário

Acho que não há bebida mais brasileira do que o café: é um item obrigatório no desjejum – e no decorrer do dia – de 9 em cada 10 pessoas. Que tal agora se juntarmos o cafezinho-nosso-de-cada-dia com uma outra gostosura?

É aí que temos o pudim de café!

pudim de café

Vai dizer que você não ficou com vontade?

Eis a receita:

Ingredientes

Pudim
1 lata de leite condensado
A mesma medida de café coado bem forte
3 ovos
Grãos de café para decorar

Caramelo
2 xícaras de açúcar
1 xícara de água

Preparo
Bata todos os ingredientes do pudim no liquidificador por dois minutos.
Caramelize uma forma metálica para pudim (com buraco no meio) com o açúcar e a água.
Despeje a mistura do pudim na forma caramelizada e leve para assar em banho-maria por 45 minutos em forno a 180ºC.
Deixe esfriar, desenforme, e se quiser, decore com grãos de café e sirva. Acompanha muito bem um cafezinho expresso.

 

Os carnavais do Brasil #2

•15 de fevereiro de 2010 • Deixe um comentário

Neste segundo post da série, mais cinco locais com comemorações carnavalescas famosas

Rio Claro (SP)

Além do desfile das escolas de samba, a cidade possui blocos de rua que resgatam antigas marchinhas e tradições carnavalescas. No Jardim Público a folia ao ar livre dura três dias.

Maragogipe (BA)

Nesta cidade a festa é impirada nas comemorações tradicionais do carnaval de Veneza, com direito a foliões fantasiados de Pierrôs e Colombinas. Essa festa é considerada patrimônio imaterial da Bahia. Há também blocos do influência afro na cidade

Rio Branco (AC)

Aqui ocorre a marujada: os integrantes desse bloco desfilam caracterizados de marujos e acompanhados de barcos em miniatura. Além da marujada, há um desfile de bonecos gigantes pela cidade.

Nazaré da Mata (PE)

Em Nazaré da Mata o carnaval é ao som do maracatu rural. O ponto alto da festa é o encontro de maracatus, que ocorre às segundas e terças de carnaval.

Paraty (RJ)

O popular carnaval de rua de Paraty tem o tradicional bloco da Lama: todos os sábados de carnaval o grupo sai pelas ruas da cidade (partindo da praia do Jabaquara) coberto de lama a fim de espantar os maus espíritos.

Causos de Rolando Boldrin – O (não) pagador de promessas

•15 de fevereiro de 2010 • Deixe um comentário

Depois de uns dois anos de eleito, o governador se encontra, nas escadarias do palácio, com um capiau. Sem reconhecer o dito cujo, o roceiro pergunta:
Capiau – Ó moço! É aqui que a gente cunversa com o governadô? É aqui que ele mora?
Governador (disfarçando) – É sim, meu bom roceiro. Mas posso saber o que o senhor tem a lhe falar?
Capiau – Pode, sim. Num sô como esses político sem vergonha e inroladô. Vim falá umas verdade.
Governador – E o senhor veio falar com o governador sobre o quê? Alguma promessa que ele não cumpriu?
Capiau – Acertô na mosca. Eu moro na cidade de Pau Furado. Ele teve lá, prometeu fazê uma ponte em cima do córrego e num fez foi nada.
Governador – E como o senhor irá se dirigir a ele?
Capiau (cuspindo fogo) – Se ele falá que num vai fazê a tar ponte, vou mandá ele pros quinto dos inferno. Vô xingá a famía dele de tudo que é nome.
Eles se despedem. Coincidentemente, era dia de o governador atender as reinvindicações do povo. E para começar seu dia com humor, manda que o secretário chame o capiau metido a valente. Ao entrar, nosso cumpadi toma um susto.
Governador – Pois bem. Qual é a reclamação?
Capiau (rodando o chapéu, de cabeça baixa) – Eu vim… cobrá… a promessa… da ponte.
Governador (fingindo aspereza) – Olha aqui, meu amigo. O governo tem mais o que fazer. Não vou fazer ponte nenhuma. E daí? O que é que há?
Capiau – O que que há? O que que há é que a coisa é daquele jeito que nóis dois cunversamo lá fora!
E sai pisando duro, rumo a Pau Furado.

Os melhores filmes brasileiros – Parte 1

•14 de fevereiro de 2010 • Deixe um comentário

Antes de você, pequeno gafanhoto, torcer o nariz para os filmes brasileiros, saiba que existe um grande número de obras-primas e de excelentes filmes da nossa terra, tendo obras pra todos os gostos: comédia, drama, romance, ação, etc. Dessa lista abaixo, enquanto alguns longas você provavelmente já deve ter ouvido falar, outros passaram quase desapercebidos pelo grande público (o que não significam que não tenham sido bons), sem contar, é claro, com alguns filmes independentes e antigos que permaneceram à margem dos grandes holofortes da mídia.

Durval Discos

Gênero: comédia / suspense

Durval (um tipo de eterno solteirão hippie dos anos 70) e sua mãe Carmita vivem há muitos anos na mesma casa onde funciona a loja Durval Discos, que já foi muito conhecida no passado mas hoje vive uma fase de decadência devido à decisão de Durval em não vender CDs. Para ajudar sua mãe no trabalho de casa Durval decide contratar uma empregada, sendo que o baixo salário acaba atraindo Célia, uma estranha candidata que chega junto com Kiki , uma pequena garota. Após alguns dias de trabalho simplesmente desaparece, deixando Kiki e um bilhete avisando que voltaria para buscá-la dentro de 3 dias.

Cama de gato (não, não é a novela!)

Gênero: drama / suspense

Nesta que é considerada a “Laranja Mecânica brasileira”, Cristiano (Caio Blat), Francisco (Rodrigo Bolzan) e Gabriel (Cainan Baladez) são três jovens de classe média que moram em São Paulo. Assim que terminam o Ensino Médio, saem pela noite paulistana em busca de diversão. Fazendo um retrato dos dilemas de uma juventude dos anos 90 diante, Alexandre Stockler tenta focalizar uma geração diante de um dilema: de um lado uma necessidade quase fisiológica de se divertir; de outro, uma preocupação contínua de se estabelecer em uma sociedade que oferece cada vez menos oportunidades. Na noite de horrores na qual os garotos mergulham, o entretenimento confunde-se com a violência, assim como a preocupação de se estabelecer na sociedade confunde-se com a tragédia humana. Na tentativa de se divertirem a “qualquer custo”, acabam matando estuprando e matando uma adolescente. A partir daí, eles passam a tentar encobrir os crimes e, quanto mais eles tentam resolver os problemas, mais eles se complicam.

Uma das coisas mais interessantes nesse longa é que ele foi todo feito em uma única tomada. Não há cortes nem interrupções. Aos mais ligados em cinema, não faltarão elementos característicos do Dogma 95.

Lavoura Arcaica

Gênero: drama

Simplesmente maravilhoso! Esse filme baseado no romance homônimo de Raduan Nassar narra em primeira pessoa a história de André, que se rebela contra as tradições agrárias e patriarcais impostas por seu pai e foge para a cidade, onde espera encontrar uma vida diferente da que vivia na fazenda de sua família. Quando é encontrado em uma pensão suja em um vilarejo por seu irmão Pedro, passa a contar-lhe, de forma amarga, as razões de sua fuga e do conflito contra os valores paternos.

Pixote – A lei do mais fraco

Gênero: drama

Obra-prima de Hector Babenco e, por que não, do cinema nacional. Um dos mais cruéis retratos da realidade nas ruas de São Paulo, onde crianças têm sua inocência retirada ao entrarem em contato com um mundo de crimes, prostituição e violência. O destaque é pela cena antológica entre o menino Pixote (Fernando Ramos da Silva) e a prostituta Sueli (Marília Pera)

Os Saltimbancos Trapalhões

Gênero: comédia

Se você puder assistir a apenas um filme dos Trapalhões, que seja este! Funcionários humildes, os amigos Didi (Renato Aragão), Dedé (Dedé Santana), Mussum (Mussum) e Zacarias (Zacarias) se tornam a grande atração do circo Bartolo, graças à sua incrível capacidade de fazer o público rir. Mas o sucesso lhes têm um preço: a oposição do mágico Assis Satã e a ganância do Barão, o dono do circo. Juntos, os quatro amigos precisarão combatê-los. Mais dois motivos para você assistí-lo: 1) tem uma ótima trilha sonora (com músicas do Chico Buarque, Lucinha Lins e Elba Ramalho, por exemplo) e 2)A Xuxa NÃO participa deste filme!

Zuzu Angel

Gênero: drama

Prepare-se para chorar (até hoje, esse foi o filme em que mais chorei na minha vida)! Conta a história real da estilista Zuzu Angel que teve seu filho torturado e assassinado pela ditadura militar e de sua luta para conseguir justiça perante o terror dos anos de chumbo. Destaque para a atuação comovente de Patrícia Pillar (como Zuzu Angel).

Se eu fosse você 2

Gênero: comédia

Sem dúvida, uma das melhores comédias brasileiras de todos os tempos, sendo superior até ao primeiro filme (Se eu fosse você). O casal Cláudio e Helena Maria, interpretado por Tony Ramos e Glória Pires, volta a viver uma troca de papéis. Depois de alguns anos da primeira troca, os conflitos constantes voltam a prejudicar a relação e o casal resolve se separar. Para tornar a situação ainda mais complicada, eles descobrem que a filha, Bia, agora com 18 anos, está grávida e vai se casar. A cena da depilação do Tony Ramos (imagina a cena?) é antológica!

Brasil: uma nação evangélica?

•9 de fevereiro de 2010 • Deixe um comentário

ATENÇÃO – esse post não tem a intenção de defender ou criticar nenhuma religião em especial. O propósito é apenas informativo

Um a cada seis brasileiros já é evangélico – e o número continua crescendo. Se você quer entender o Brasil e antever o futuro, precisa antes saber como isso foi acontecer

Sérgio Gwercman, para a Superinteressante (fev. 2004)

O texano Kenneth Hagin, nascido em 1917, era uma criança doente. Desde os 9 anos, ficou confinado na casa do avô. Aos 16, desenganado pelos médicos, infeliz e preso a uma cama, tinha poucas esperanças de ver sua vida melhorar. Um ano depois, em agosto de 1934, Hagin teve uma revelação. Ele compreendeu de repente o significado de um versículo do Evangelho de São Marcos. A passagem do Novo Testamento dizia: “Tudo quanto em oração pedires, credes que recebeste, e será assim convosco”. Hagin então ergueu as mãos para o céu e agradeceu a Deus pela cura, mesmo sem ver sinal de melhora. Então levantou-se da cama. Estava curado.

A mensagem, que Hagin popularizou por meio de mais de 100 livros, é clara: Deus é capaz de dar o que o fiel desejar. Basta ter fé e acreditar que as próprias palavras têm poder. Sendo assim, para os verdadeiros devotos, nunca faltará dinheiro ou saúde. Essa doutrina ficou conhecida como “teologia da prosperidade”. A crença foi incorporada anos depois por várias igrejas. Ela é central no mais impressionante fenômeno religioso do Brasil contemporâneo: a explosão evangélica.

No começo, essa explosão se deu em silêncio, praticamente ignorada pelas classes médias. Os templos evangélicos surgiam nas cidadezinhas perdidas e nas periferias miseráveis das metrópoles. Já não é mais assim. No primeiro dia de 2004, a Igreja Pentecostal Deus é Amor inaugurou no coração de São Paulo o seu novo templo. A obra tem tamanho de shopping center, arquitetura de gosto duvidoso e comporta 22 mil pessoas sentadas.

É cinco vezes maior que a católica Catedral da Sé, lá perto.

Há meio século os evangélicos são a religião que mais cresce no país. Nos últimos 20 anos, mais que triplicou o número de fiéis: de 7,8 milhões de pessoas em 1980 para 26,4 milhões em 2001, um pulo de 6,6% para 15,6% da população brasileira. Em algumas cidades, foram criados vagões de trem exclusivos para crentes, em que as pessoas podem viajar ouvindo pregações bíblicas. Em outras, não parece longe o dia em que eles representarão mais de 50% dos habitantes. Com mais de 400 anos de atraso, finalmente estamos sentindo os efeitos da Reforma protestante que varreu a Europa no século 16.

Um terreninho do Céu

Evangélicos, é importante esclarecer, é a mesma coisa que protestantes. As duas palavras são sinônimas. Ou seja, evangélicas são praticamente todas as correntes nascidas do racha entre o teólogo alemão Martinho Lutero e a Igreja Católica, em 1517 . O alemão estava especialmente chateado com o comportamento dos padres, que, segundo ele, tinham virado corretores imobiliários do céu, comercializando indulgências – vagas no Paraíso para quem pagasse.

Lutero abriu a primeira fenda no até então indevassável poder papal sobre as almas do Ocidente. A ele se seguiram outros. Na Inglaterra, o rei Henrique VIII criou sua própria dissidência do catolicismo – depois batizada de anglicanismo – só porque o papa não queria que ele se divorciasse e casasse de novo. Na Suíça, Ulrico Zwinglio e João Calvino aprofundaram as reformas de Lutero. Zwinglio pregava o princípio que fundamentaria todo o movimento: o cristão deve seguir apenas a Bíblia (os católicos aceitam influências de teólogos, como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino). Já Calvino foi o responsável pela introdução do puritanismo, que combinava regras rígidas de conduta com uma fervorosa dedicação ao trabalho. No começo do século 20, o sociólogo alemão Max Weber publicou o texto clássico A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, no qual atribui a essa invenção de Calvino o sucesso do capitalismo em países evangélicos.

Todos esses movimentos estimulavam o fim do monopólio da Igreja sobre a interpretação da Bíblia. Cabia a todo e qualquer cristão ler as Escrituras e tirar delas o que quisesse. Os protestantes recusavam a idéia de que um único líder – o papa – deveria guiar os rumos da religião. Foi isso que começou a fragmentação do movimento em diversas correntes, com pequenas diferenças doutrinárias. Surgem os batistas, os metodistas, os presbiterianos…

Mas o Brasil colonial passou quase imune à avalanche protestante. Houve apenas algumas exceções, como os calvinistas franceses e holandeses que invadiram o país – o primeiro culto evangélico por estas terras foi celebrado por franceses no Rio de Janeiro, em 1557, só 57 anos depois da missa católica inaugural. Era proibido realizar cultos de qualquer religião que não o catolicismo no território português.

A liberdade religiosa no Brasil só veio com a independência, na Constituição de 1824, ainda que impondo restrições de que as reuniões acontecessem em locais que não tivessem “aparência exterior de templo”. No mesmo ano, alemães fundaram a primeira comunidade luterana do Brasil. Logo depois chegaram as correntes missionárias, como os metodistas, dispostas a pregar nas ruas para salvar almas. Eles caíram nas graças da elite intelectual republicana que, impressionada com a “ética protestante”, defendia a presença de evangélicos como condição para a modernização do país.

Mas os protestantes que prosperaram no Brasil pouco tinham a ver com a tal ética protestante de Weber. No início do século 20, a fundação de duas igrejas seria decisiva para definir o perfil evangélico nacional: a Congregação Cristã no Brasil, inaugurada em São Paulo pelo italiano Luigi Francescon, em 1910, e a Assembléia de Deus, aberta um ano depois em Belém pelos suecos Gunnar Vingren e Daniel Berg. Apesar da origem européia, eles chegaram ao país via Estados Unidos, onde se envolveram com uma nova corrente protestante, o pentecostalismo, um grupo que crescia em popularidade por lá desde a virada do século.

Começou aí o que o sociólogo Paul Freston chama de “a primeira onda do pentecostalismo brasileiro”. O movimento era desaprovado tanto por católicos quanto pelos protestantes “históricos”, como são conhecidas as correntes diretamente ligadas a Lutero e Calvino. Nem uns nem outros gostavam da principal característica da doutrina pentecostal: a exacerbação dos poderes sobrenaturais do Espírito Santo (a palavra “pentecostalismo” vem de uma passagem da Bíblia que diz que, num dia de Pentecostes – a Páscoa judaica –, o Espírito Santo desceu aos apóstolos e começou a operar milagres). O mais notável desses poderes é a capacidade que Deus tem de curar imediatamente qualquer problema de saúde – daí as cenas de aleijados abandonando muletas e míopes pisando nos óculos. O pentecostalismo cresceu na classe baixa, promovendo cultos de adoração fervorosa e improvisada, bem dissonantes dos protestantes tradicionais, tão formais quanto contidos.

Para participar das novas congregações, os fiéis eram obrigados a se submeter a rígidas normas comportamentais. Os pentecostais eram os “crentes” estereotípicos: mulheres de cabelos compridos e saia, homens de terno e Bíblia na mão. As palavras essenciais para entender suas rotinas de vida são ascetismo, ou a recusa de usufruir os prazeres da carne, e sectarismo, o isolamento do restante da sociedade. Por trás delas, está a idéia de que o cristão deve se manter concentrado em Deus. Só assim ele pode evitar que o Diabo ganhe espaço na sua vida. Para os pentecostais, o mundo é simples: o que não é de Deus é o Diabo.

A Deus é Amor, aquela que  abriu um megatemplo no centro de São Paulo, é uma das mais rigorosas entre as pentecostais. Ela proíbe freqüentar praias, praticar esportes ou participar de festas. Às mulheres, é vetado cortar o cabelo e depilar. Crianças com mais de 7 anos não podem jogar bola, graças a um versículo bíblico que diz “desde que me tornei homem, eliminei as coisas de criança”. Tantas regras têm compensação: para os pentecostais, o melhor da vida está reservado aos fiéis para depois da morte.

Até a década de 50, esse modelo reinou sozinho no pentecostalismo nacional. Fez sucesso, mas ficou restrito a grupos relativamente pequenos. A chegada da “segunda onda”, no entanto, traria uma novidade. É o que se convencionou chamar de “neopentecostalismo”. Em 1951 desembarcou aqui a Igreja do Evangelho Quadrangular, inaugurando no país o pentecostalismo de costumes liberais. “Todas essas igrejas que fazem sucesso hoje são nossas filhas, netas ou bisnetas”, diz o pastor Neslon Agnoletto, do conselho nacional da Quadrangular. De fato, inovações como os hinos com ritmos populares, a forte utilização do rádio e regras de comportamento menos duras, todos ingredientes indispensáveis do “evangelismo de massas”, foram práticas importadas pela Quadrangular, fundada nos Estados Unidos em 1923.

Deus é um office-boy

Para resumir, neopentecostalismo quer dizer que Monique Evans, Gretchen e Marcelinho Carioca podem agora se considerar “crentes”. Para isso, algumas adaptações aconteceram: saem os homens de terno e as mulheres de pêlos nas pernas, entram pessoas que se vestem com roupas comuns e não se animam a seguir normas rígidas de conduta (veja na página 57 as diferenças entre pentecostais e neopentecostais). A primeira inovação foi riscar do mapa o ascetismo, o sectarismo e a crença de que a melhor parte da vida está reservada para o Paraíso. “A preocupação dos neopentecostais é com esta vida. O que interessa é o aqui e o agora”, afirma o sociólogo Ricardo Mariano, autor de Neopentecostais – Sociologia do Novo Pentecostalismo no Brasil.

Outra diferença é a radicalização da divisão do Universo entre Deus e o Diabo. Para os neopentecostais, os homens não são responsáveis pelos atos de maldade que cometem: é o Diabo que os leva a pecar. Numa sessão de descarrego da Igreja Universal, o pastor explicou que, se o fiel enfrenta um problema há mais de três meses, é provável que esteja carregando um encosto. “Se a dificuldade completar um ano, daí não há dúvida: a culpa é do demônio”, disse para a congregação. Ele não se referia só a entraves financeiros ou comportamentais. A receita vale para tudo, inclusive para doenças incuráveis. Assim, expulsar o demônio do corpo é a receita única para todos os males, de casamento infeliz até câncer no pulmão.

O ritual é feito aos gritos de “sai, capeta”, às vezes com lágrimas escorrendo pelo rosto e transes que terminam no exorcismo. Os cultos tornaram-se mais ativos, incluindo aplausos para Jesus e música gospel. Mas a inovação mais profunda do neopentecostalismo foi a aplicação da teologia da prosperidade, aquela exposta no primeiro parágrafo desta reportagem. Graças a ela, o neopentecostalismo ganhou o apelido de “fé de resultados”.

“A teologia da prosperidade faz o fiel encarar Deus como um office-boy”, diz o cientista da religião e pastor Paulo Romeiro, autor de Supercrentes – O Evangelho Segundo os Profetas da Prosperidade. “O crente dá ordens e determina o que pretende. Não há qualquer reconhecimento das fragilidades humanas e de suas necessidades em relação a um Deus superior”, afirma Romeiro. No Brasil, além da Universal, a Renascer em Cristo, a Sara Nossa Terra e a Internacional da Graça de Deus adotam a teologia da prosperidade.

A força de enxurrada com que o neopentecostalismo cresceu desorganizou todo o protestantismo. “Há uma verdadeira perda de identidade no movimento evangélico mundial. O pentecostalismo flexibilizou suas exigências comportamentais e até os protestantes históricos passaram a aceitar a participação mais ativa do fiel no culto e algumas manifestações sobrenaturais”, afirma o pastor batista Joaquim de Andrade, pesquisador da Agência de Informações da Religião. Mais e mais, boa parte do mundo protestante aceita a teologia da prosperidade.

A onda de mudança foi bater até onde a Reforma de Lutero não tinha chegado: nas praias do catolicismo. A influência neopentecostal sobre a renovação carismática católica é tão grande que seu maior expoente no Brasil, padre Marcelo Rossi, é acusado de ter gravado hinos religiosos tirados de templos evangélicos.

Mapa das religiões cristãs no Brasil:

Católicos

Paraíso

A salvação está nas obras que se realizam durante a vida

Dinheiro

Condenam o lucro. A riqueza afasta os homens de Deus e do Paraíso

Doutrina

Ao lado da Bíblia, aceitam as reflexões de teólogos como base da doutrina

Maria

Acreditam na santidade de Maria, a mãe virgem de Deus

Imagens

Conferem valor sagrado para estátuas que representam santos

Celibato

O sacerdócio pode ser realizado apenas por homens com voto de celibato

Liderança

O papa é seu líder infalível, sucessor de São Pedro

Interpretação

A interpretação da Bíblia é exclusividade dos bispos e dos teólogos

Evangélicos

Paraíso

A salvação está na fé: basta aceitar Jesus para ter lugar no Paraíso

Dinheiro

A prosperidade é sinal de que o fiel está predestinado à felicidade eterna

Doutrina

Recusam qualquer ensinamento que não venha diretamente da Bíblia

Maria

Recusam a santidade de Maria, sua virgindade e sua ascensão aos céus

Imagens

Rejeitam qualquer forma de santidades e representações

Celibato

O sacerdócio é exercido por homens e mulheres, que podem constituir família

Liderança

Recusam a liderança e a infalibilidade do papa

Interpretação

Todo fiel pode (e deve) ler e estudar sozinho a Bíblia

Metade dos 2 bilhões de cristãos é católica e 10% são ortodoxos. Os outros 40% são evangélicos (ou protestantes). E as novas igrejas pentecostais e neopentecostais cresceram tanto que já são quase metade dos evangélicos – ou 19% da cristandade.

ORTODOXOS

Quando a cristandade se parte em duas, nasce essa nova religião, graças a discordâncias sobre questões teológicas pontuais, como o papel das imagens de Cristo. Menos centralizada que o catolicismo, a religião foi se fragmentando: as igrejas ortodoxas russa e grega são hoje as duas principais

CISMA DO ORIENTE

A separação do Império Romano entre o oriental e o ocidental, seguida da derrocada deste último, criou as condições para a primeira grande cisão do cristianismo, em 1054 – em grande medida uma disputa de poder entre o papa de Roma e o patriarca de Constantinopla, a capital do lado oriental

CRISTO

Embora a Igreja atribua ao apóstolo Pedro a sua fundação, a cristandade primitiva pouco mais era que um punhado de grupos autônomos. Como o centro do mundo era Roma, era natural que a cidade fosse se tornando também a “capital” da Igreja, com o crescente poder do papa

CATÓLICOS

Os católicos romanos mantêm-se subordinados ao poder centralizado do papa. Suas principais diferenças com os demais segmentos da religião estão relacionadas à crença em santos e às representações da imagem de Cristo. As maiores populações católicas, hoje, estão na América

PROTESTANTES

PROTESTANTISMO

Em 1517, Lutero denunciou falhas na condução do cristianismo. A polêmica acabou dando origem ao terceiro grande ramo do cristianismo, ao lado da Igreja Católica e da Ortodoxa. Como os protestantes (ou evangélicos) combatem a centralização papal, acabaram se fragmentando em muitas denominações

NEOPENTECOSTAIS

Diferem dos pentecostais pela liberalização dos costumes e a teologia da prosperidade. Embora sejam só uma folhinha recente num ramo secundário desta árvore, são responsáveis pela explosão mundial evangélica

PENTECOSTAIS

Surgidos nos EUA (onde batistas e metodistas são fortes), se espalharam por regiões pobres. Aceitam manifestações do Espírito Santo, como a capacidade de curar doentes. No Brasil, são conhecidos pelos costumes rígidos

METODISTAS

Discípulos de John Wesley, que deixou a Igreja Anglicana para pregar nas ruas da Inglaterra. O nome é inspirado no grupo estudantil liderado por Wesley, chamados de “metódicos” por sua estrita observância religiosa

LUTERANOS

O movimento iniciado por Lutero está diretamente ligado aos primeiros ideais protestantes. A nova religião libera a comunhão com Deus para todos os indivíduos, sem a intervenção de sacerdotes, elimina os rituais considerados não bíblicos e permite a leitura da Bíblia na língua local

BATISTAS

Como surgiram na Inglaterra, podem ser considerados dissidência do anglicanismo. Rejeitam o batismo infantil e adotam o “batismo de fé” de adultos (que são imersos em água)

ANGLICANOS

A religião surgiu só para satisfazer o rei Henrique VIII, que queria se divorciar, contra a vontade do papa, e nomeou-se “Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra”

CONGREGACIONALISTAS

CALVINISMO

Se Lutero pregava mudanças dentro do catolicismo, João Calvino não tinha dúvidas: queria reformar a religião, em busca de uma maior observância à Bíblia e a princípios morais rígidos. Seus seguidores fundaram o presbiterianismo e o congregacionalismo

MÓRMONS, ADVENTISTAS E TESTEMUNHAS DE JEOVÁ

FOLHAS SOLTAS

Os mórmons, adventistas e testemunhas de Jeová nasceram no protestantismo, mas geralmente não são considerados evangélicos porque, além da Bíblia, baseiam as doutrinas também em escrituras modernas

Pentecostalismo

QUEM É – Congregação Cristã no Brasil, Deus é Amor, Assembléia de Deus, Brasil para Cristo

PARAÍSO – A vida na Terra é uma fase de espera. Qualquer sofrimento é mínimo se comparado às maravilhas do céu

DÍZIMO – O fiel deve dar à Igreja regularmente 10% de seu salário, como determina a Bíblia

PRAZERES – Quem é atraído por prazeres mundanos está se concentrando menos em Deus – e abrindo espaço para o Diabo

SEXO – Sexo serve para reprodução. Quem busca prazer sexual está se entregando ao demônio

VIDA SOCIAL – Deve ficar restrita à comunidade. Álcool e música que não fala de Deus não são para crentes

APARÊNCIA – Algumas igrejas impõem trajes formais e proíbem a depilação e o corte de cabelo. Crianças não podem brincar

TABUS – Adultério, homossexualismo e aborto são inaceitáveis

Neopentecostalismo

QUEM É – Universal, Evangelho Quadrangular, Sara Nossa Terra, Internacional da Graça de Deus, Renascer

PARAÍSO – Após a morte, todo cristão será recompensado com o Paraíso. Mas é possível vivê-lo na Terra, recebendo as graças de Deus

DÍZIMO – Idem, mas pagando o dízimo o fiel ganha o direito de exigir que Deus o recompense

PRAZERES – Não há nada de errado em se divertir, desde que isso seja feito de forma moderada, sem excessos

SEXO – Prazer sexual é uma bênção de Deus, desde que a relação aconteça entre marido e mulher

VIDA SOCIAL – Não se deve beber nem fumar, mas não é necessário se isolar da sociedade

APARÊNCIA – A escolha da roupa é uma questão de gosto pessoal. Usar maquiagem e ser moderadamente vaidoso não é proibido

TABUS – Idem, idem, idem

Para o fiel virar pastor, o importante é ter carisma. Até há pouco tempo, nem mesmo a formação teológica era exigida – algo que vem mudando. Certamente, as chances de um pastor ganhar dinheiro são proporcionais ao seu talento em arrecadar. Cada denominação estabelece seu sistema de organização e escolhe o nome dos cargos – o espírito de liberdade protestante ainda é levado a sério. No quadro abaixo, usamos como exemplo o “plano de carreira” da Igreja do Evangelho Quadrangular

Diácono

É o encarregado pelo bem-estar durante os cultos. Cuida da organização do templo, atende novos fiéis e faz a triagem dos casos que serão encaminhados para o pastor. É a única função permitida aos leigos. O trabalho é voluntário

Obreiro

Auxilia o pastor comandando encontros religiosos residenciais, visitando doentes e pregando em novas congregações. Apenas os formados no Instituto Teológico da Quadrangular podem exercer a função. Não há salário

Aspirante ao ministério

Obreiros com carisma e vocação para pregar, com pelo menos quatro anos de experiência, são convidados a comandar cultos na ausência do pastor principal. Esse trabalho também é voluntário

Pastor local

Depois de dois anos como assistente, o sujeito pode comandar os cultos, administrar o templo e atender a congregação – e passa finalmente a ganhar por isso. A remuneração é proporcional ao tamanho do templo e, claro, à sua arrecadação

Superintendente

Pastor responsável por um templo de importância local. Também é encarregado pelo monitoramento de outros templos menores da mesma região

Diretor

Integra a cúpula nacional, formada por dez pastores eleitos anualmente. Decide os rumos administrativos e religiosos da Quadrangular

ASSEMBLÉIA DE DEUS

Orientação: pentecostal

Fiéis: 8,4 milhões

Fundação: 1911

Principais áreas de atuação: Rio de Janeiro e São Paulo

Crescimento anual**: 14,8%

IGREJA BATISTA

Orientação: tradicional

Fiéis: 3,1 milhões

Fundação: 1889 (no Brasil)

Principais áreas de atuação: Rio de Janeiro

Crescimento anual**: não disponível

CONGREGAÇÃO CRISTÃ NO BRASIL

Orientação: pentecostal

Fiéis: 2,5 milhões

Fundação: 1910

Principais áreas de atuação: São Paulo e Paraná

Crescimento anual**: 4,8%

IGREJA UNIVERSAL DO REINO DE DEUS

Orientação: neopentecostal

Fiéis: 2,1 milhões

Fundação:1977

Principais áreas de atuação: Rio de Janeiro e São Paulo

Crescimento anual**: 25,7%

IGREJA DO EVANGELHO QUADRANGULAR

Orientação: neopentecostal

Fiéis: 1,3 milhão

Fundação: 1951 (no Brasil)

Principais áreas de atuação: Belo Horizonte e Curitiba

Crescimento anual**: 15,8%

* Fonte: Atlas da Filiação Religiosa e Indicadores Sociais no Brasil/IBGE

** Entre 1991 e 2000

Na livraria:

Neopentecostais, Ricardo Mariano, Loyola, 1999

Igreja Universal do Reino de Deus, Ari Pedro Oro, André Corten e Jean-Pierre Dozon (organizadores), Paulinas, 2003

Evangélicos e Mídia no Brasil, Alexandre Brasil Fonseca, Edusf/Ifan/Faculdade São Boaventura, 2003

Supercrentes, Paulo Romeiro, Mundo Cristão, 1993

A Realidade Social das Religiões no Brasil, Antônio Flávio Pierucci e Reginaldo Prandi, Hucitec, 1996

Os Evangélicos, Clara Mafra, Jorge Zahar, 2001

Bíblia Sagrada

Na internet:

http://www.worldchristiandatabase.org, Um excelente censo mundial de cristãos

http://www.centrodametropole.org.br/textos.html, Análises sobre o crescimento evangélico nas metrópoles

Brasileiros – Arthur Bispo do Rosário

•8 de fevereiro de 2010 • Deixe um comentário

Natural de Japaratuba (SE), Arthur Bispo é descendente de escravos africanos, filho de uma família de poucas posses. Foi marinheiro na juventude (entre 1925 e 1933), vindo depois a tornar-se empregado de uma tradicional família carioca.

Na noite do dia 22 de dezembro de 1938, despertou com alucinações que o conduziram ao patrão, o advogado Humberto Magalhães Leoni, a quem disse que iria se apresentar à Igreja da Candelária. Depois de peregrinar pela rua Primeiro de Março e por várias igrejas do então Distrito Federal, terminou subindo ao Mosteiro de São Bento, onde anunciou a um grupo de monges que era um enviado de Deus, encarregado de julgar aos vivos e aos mortos. Dois dias depois foi detido e fichado pela polícia como negro, sem documentos e indigente, e conduzido ao Hospício Pedro II (o hospício da Praia Vermelha), primeira instituição oficial desse tipo no país, inaugurada em 1852, onde anos antes havia sido internado o escritor Lima Barreto (1881-1922).

Um mês após a sua internação, foi transferido para a Colônia Juliano Moreira, localizada no subúrbio de Jacarepaguá, sob o diagnóstico de “esquizofrênico-paranóico”. Aqui recebeu o número de paciente 01662, e permaneceu por mais de 50 anos.

Em determinado momento, Bispo do Rosário passou a produzir objetos com diversos tipos de materiais oriundos do lixo e da sucata que, após a sua descoberta, seriam classificados como arte vanguardista e comparados à obra de Marcel Duchamp (aquele do mictório). Entre os temas, destacam-se navios (tema recorrente devido à sua relação com a Marinha na juventude), estandartes, faixas de mísses e objetos domésticos. A sua obra mais conhecida é o Manto da Apresentação, que Bispo deveria vestir no dia do Juízo Final. Com eles, Bispo pretendia marcar a passagem de Deus na Terra.

Os objetos recolhidos dos restos da sociedade de consumo foram reutilizados como forma de registrar o cotidiano dos indivíduos, preparados com preocupações estéticas, onde se percebem características dos conceitos das vanguardas artísticas e das produções elaboradas a partir de 1960.

Utilizava a palavra como elemento pulsante. Ao recorrer a essa linguagem manipula signos e brinca com a construção de discursos, fragmenta a comunicação em códigos privados.

Inserido em um contexto excludente, Bispo driblava as instituições todo tempo. A instituição manicomial se recusando a receber tratamentos médicos e dela retirando subsídios para elaborar sua obra, e Museus, quando sendo marginalizado e excluído é consagrado como referência da Arte Contemporânea brasileira.

Bispo do Rosário faleceu no hospital psiquiátrico em 1989, após quase 50 anos de recolhimento. Os últimos 25 anos de vida foram sem nenhuma saída do hospital, em total isolamento do “mundo de fora”. Há 802 obras assinadas por ele no acervo do Museu Bispo do Rosário. A coleção de Arthur Bispo do Rosário foi tombada em 1992.

Algumas de suas obras:

O Manto da Apresentação

Fontes:

Wikipédia

Museu Oscar Niemeyer

Os carnavais do Brasil #1

•8 de fevereiro de 2010 • Deixe um comentário

Começa hoje uma série especial de posts sobre algumas comemorações carnavalescas de diversos pontos do país. Mostraremos, primeiramente 5 delas:

Micaraima (Pacaraima – RR)

A festa carnavalesca mais tradicional do estado de Roraima ocorre fora de época – da quarta-feira de cinzas e se extendendo até o domingo. A folia acontece ao som de muto axé e de bandas populares.

Uruguaiana (RS)

Com um desfile de escolas de samba a la Rio de Janeiro, Uruguaiana possui um dos melhores carnavais de rua do Brasil. Com doze escolas de samba partipantes (seis em cada grupo) o desfile costuma reunir um público maior que 80 mil pessoas no sambódromo da cidade.

Parnaíba (MS)

Carnaval com os tradiucionais blocos de rua é uma das maiores festas do estado. Além dos blocos são realizados também o desfile das escolas de samba e os concursos de rei e rainha do carnaval.

Cajazeiras (PB)

A principal comemoração carnavalesca da Paraíba é marcada pela variedade:  inúmeros shows de diversos gêneros musicais (do frevo ao rock) agitam o chamado “Corredor da Folia”.

Cidades Históricas (Ouro Preto, Tiradentes e São João Del Rey – MG)

Com um famoso carnaval de rua com marchinhas, fantasias e blocos, a festa costuma atrair estudantes universitários que moram naquela região, e que à noite organizam várias festas nas inúmeras repúblicas existentes por lá.